10 de janeiro de 2014

Ponte Maurício de Nassau


Desenho à lápis da Ponte do Recife, primeira ponte Maurício de Nassau, século XVII
A ponte teve sua construção iniciada por ordem do conde Maurício de Nassau e ligava a vila portuária no istmo do Recife à ilha de Antonio Vaz, chamada na época de Cidade Maurícia (Mauritsstad). É considerada a primeira ponte de grande porte do Brasil e a mais antiga da América Latina.

No início o Recife era uma vila, um povoado de mareantes e alguns pescadores que viviam em torno do Porto dos Navios e da ermida de São Frei Pedro Gonçalves, por eles denominada de Corpo Santo.

Desde a segunda metade do século XVI o Recife, um porto por excelência, se transformara no de maior movimento da América Portuguesa, sendo o escoadouro principal das riquezas da mais promissora de todas as capitanias: Pernambuco. Na época já contava com mais de 120 engenhos produzindo açúcar e exportava o produto por meio desse porto. Os holandeses, através da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, viram ali a oportunidade de restaurar o comércio do açúcar com os Países Baixos, proibido pela Coroa da Espanha.

Em 14 de fevereiro de 1630, utilizando a maior esquadra que até então cruzara a linha do Equador, formada por 65 embarcações e 7.200 homens, os holandeses tomaram de assalto a Capitania de Pernambuco, invadindo primeiramente Olinda, que foi incendiada, e em seguida Recife. Com a vitória, as forças holandesas foram reforçadas por um efetivo de mais 6.000 homens, enviado da Europa para assegurar a posse da conquista. Teve início, então, uma dominação que se estendeu até janeiro de 1654.

Vencido o período inicial de resistência que marcou os primeiros anos da ocupação, a Companhia nomeou o conde João Maurício de Nassau para administrar a conquista, tendo chegado em Pernambuco no ano de 1637.

Nassau promoveu uma reforma urbanística, expandindo a cidade em direção à Ilha de Antônio Vaz (atual Santo Antônio), batizada de Cidade Maurícia (Mauritsstad). A ideia de se dotar a cidade de uma ponte surgiu desde o início, pois sua falta dificultava o desenvolvimento pretendido. O conde mandou realizar estudos para avaliar as condições das correntes do rio e contratou o pedreiro português Manoel Costa para construir pilares de pedras com três metros e sessenta centímetros de comprimento por dois metros e quarenta centímetros de largura. Em 1641, o engenheiro judeu Baltazar da Fonseca assumiu a construção da ponte, por 24.000 florins e, curiosamente, com direito a um prêmio de 1.000 patacas para a esposa, no caso de vir a se casar em terras recifenses.

A obra teve início com a participação de 50 escravos e alguns operários especializados. Entretanto problemas de ordem técnica impediram a conclusão da obra, obrigando a assinatura de um distrato. Diante do impasse, o próprio Nassau tomou a frente da empresa, substituindo os pilares de pedras projetadas por arrimos de madeira resistentes à umidade, assentando o resto do lastro.

Só em 1644, no dia 28 de fevereiro, num dia de domingo, foi possível passar do Recife à Maurícia “a pé enxuto”. Foi dada por inaugurada a ponte, sob o nome de Ponte do Recife, tendo quase o dobro do comprimento de hoje: começava no atual cruzamento da avenida Marquês de Olinda com a rua Madre de Deus e ia até o atual cruzamento das ruas Primeiro de Março com a Imperador D. Pedro II.
Mapa do Recife em 1644 com a Ponte ligando o Recife à Maurícia

A propósito dessa inauguração, conta-se que para chamar a atenção do público para o evento, Nassau prometeu que faria um boi voar por sobre a ponte. Atraídos pelo inusitado, grande massa de gente ocorreu ao ato de inauguração. Valendo-se de um boi de couro montado sobre roldanas que deslisavam sobre um cabo previamente instalado no alto por sobre a ponte, o povo viu cumprida a promessa do notável governante recifense.

Óleo de Frans Post de 1647 com a ponte em primeiro plano
Um outro fato curioso e pouco conhecido é que esta ponte contava com uma parte levadiça, um feito notável de engenharia para a época.

Em 11 de junho de 1649, com o acúmulo de pessoas, em ambas as cabeceiras, desejando passar, ao estar a ponte descida, o excesso de peso a fez ruir. Cerca de 16 pessoas caíram no rio. Entre os nove mortos encontrados no outro dia estavam Baltazar van Dertmont, membro do Conselho de Contas e David Atsembora, notário e procurador no Recife.

Em 1683 a ponte passou por uma reforma, mantendo-se os arcos de pedra. Anos depois, em 1742, aconteceu uma grande transformação: aproveitando-se alguns dos pilares postos por Baltazar da Fonseca e os arcos postos por Nassau refez-se a ponte sendo remodelados os arcos. A ponte reformada contava também com cerca de 60 casinhas, primeiramente de taipa e depois de pedra e cal, que eram lojinhas onde se vendiam de panos da China e jóias a quinquilharias e ferragens.

Em 1813 fez-se novas reformas na ponte, aproveitando-se ainda os primitivos pilares postos por Baltazar da Fonseca. Mas a velha estrutura não resistiu e dois daqueles pilares ruíram em 5 de Outubro de 1815, levando tudo abaixo. É interessante salientar que a estrutura construída por Baltazar da Fonseca resistiu por 173 anos. A estrutura foi toda renovada, perdendo-se o legado do engenheiro judeu, e ficou com a forma abaixo.

Ponte do Recife em 1855 (foto de Augusto Stahal)

Mas mesmo assim em 1862 uma parte da ponte caiu. No seu lugar foi construída uma nova ponte, completamente de ferro, cujas principais peças vieram da Inglaterra. Sua inauguração deu-se em 7 de Setembro de 1865, tendo recebido o nome de Ponte Sete de Setembro.

Ponte 7 de Setembro, tendo o fundo a Alfândega e a Igreja da Madre de Deus

Detalhe da estrutura da Ponte 7 de Setembro

Ponte 7 de Setembro - Foto de 1875

Esta ponte teve pouca durabilidade pois a maresia corroeu o ferro da estrutura. Em 1915 ela já estava bastante danificada quando o governador D. Manuel Antônio Pereira Borba determinou sua reconstrução.

Em 1917 a ponte foi reconstruída, dessa vez com a estrutura de concreto armado, tendo sido inaugurada em 18 de Dezembro daquele mesmo ano, recebendo o atual nome de "Maurício de Nassau", uma justa homenagem.

Cartão postal da Ponte Mauricio de Nassau - 1918

Hoje, é uma beleza que faz parte do dia-a-dia de milhares de pessoas que trabalham no Centro do Recife e a utilizam para locomoção.

Ponte Mauricio de Nassau atualmente
Durante todo este tempo a ponte teve as seguintes denominações:
  • 1642-1861: Ponte do Recife 
  • 1861-1917: Ponte 7 de setembro 
  • 1917- atual: Ponte Maurício de Nassau 

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